Desde o começo dos curativos havia uma pequena bolha de coágulo ao meio de todo aquele músculo exposto.
Nunca me preocupei com ela, uma hora ia sumir, assim como outros pequenos detalhes que acompanhavam a ferida.
Ele estava tão disposto, comendo bem. O médico disse que devido ao ferimento talvez ele tivesse complicações ao evacuar, e que teria que tomar laxante, mas meu pequeno sempre foi tão forte e se adaptou tanto ás limitações que obvio que fazia e faz seus cocos sem nenhuma dificuldade.
Apenas um detalhe me preocupava : ele tinha perdido 50% da força e equilíbrio da pata esquerda traseira. Nos primeiros dias achei que pudesse ser da anestesia, mas não poderia ser, a região cirúrgica era na pata direita.
Isso me preocupava, mas ao mesmo tempo sabia que era uma sequela da cirurgia, todos me confirmavam isso.
Retornamos a consulta após cirurgia, feita de 15 em 15 dias e mencionei os dois fatores que me intrigavam : a pata e o coágulo de sangue.
Até hoje penso se fiz certo em questionar ou deveria ficar na dúvida, afinal ele estava tão bem, não seria um coágulo que ia atrapalhar, o que eu mais queria ouvir do médico eram boas notícias, e o elogio á forma que eu vinha tratando e cuidando do Bee.
Pronta pra escutar que logo ele ia tirar aquela fralda e que a ferida estava cicatrizando, veio mais uma bomba ! Talvez a pior desde o diagnóstico; a perna poderia ser reflexo de uma metástase na coluna ou medula, prendendo a mesma e fazendo ele sentir dor. Metástase na coluna ? Como isso era possível ? Ele estava ótimo, não parecia ter dores. Como poderia surgir uma metástase tão longe do tumor em si ... fiquei mais uma vez calada, pensando que não era isso, que o nervo deveria ter sido afetado na cirurgia, algo tinha acontecido, mas nunca uma metástase !
Aquilo já me deixou fora do ar por minutos, parecia a consulta mais longa de toda vidinha dele, queria que os exames acabassem e que ele saísse do meio dos estagiários e viesse embora pra casa. Não via a hora daquele médico sentar e me contar tudo que estava acontecendo, que tipo de exame iria fazer e qual o protocolo que ele usaria para acabar com a maldita metástase.
Minha cabeça pensava duzentas coisas, e eu só via ele frágil e paciente em cima daquela mesa, sem saber o que fazia ali. Com tanta força e um espírito elevado eu não poderia me sentir mal ao lado dele, pois tenha a certeza que ele iria perceber.
Mas antes do final da consulta o médico olhando o ferimento disse que a cicatrização estava indo bem, e que aquela bolinha de coágulo não se tratava de um coágulo em si, se tratava de um tumor maligno.
Era tudo que eu queria ouvir : METÁSTASE + RECIDIVA !
Perguntei quando seria a nova operação, o que faríamos ? Não houve resposta positiva, se há uma recidiva do tumor, não há mais cura, ele se tornou mais forte que o organismo dele, já esta na corrente sanguínea.
Questionei á respeito da quimio, mas seria apenas uma opção paliativa, não ha mais chances de cura.
Eu não acreditava, eu não poderia acreditar que de fato essa doença não gera cura e sim milagres apenas, e que o milagre não foi feito no meu pequeno.
Me culpei por pedir á Deus que não levasse ele pela insuficiência renal, agora ele estava com uma doença bem pior que estava se espalhando pelo corpinho dele.
Acho que neste momento fiz tantas perguntas, queria tanto uma resposta que o médico se irritou um pouco comigo.
Fui pra casa arrasada .... mas não queria demonstrar na frente da minha mãe que eu estava desesperada, que eu não via saída, e que eu precisava fazer alguma coisa ! Mas fazer o que ? Eu não poderia fazer nada além do que já estava fazendo.
Muitas vezes me pergunto o que meu querido e amado Beethoven fez á Deus pra merecer tanto sofrimento, aonde estava Deus ? Eu precisava da misericórdia dele, meu pequeno estava tão bem, mal sabe que tem um câncer muito agressivo.
Ao mesmo tempo tenho certeza que Deus só está querendo me ensinar algo, ensinar que não somos nada, não temos nada. Eu precisava entender que o que fica é o bem que fazemos ao próximo, e eu precisava perder pessoas ( meu chefe e minha tia ) pra entender isso ?
Tanto precisava que ainda preciso, ele vai levar meu pequeno que sempre fez o bem, um anjo .... só pra eu entender de uma vez que eu preciso fazer o bem, eu preciso abraçar uma causa, ajudar uma criança com câncer, enfim .... eu preciso passar por isso !
Já fiz inúmeros curativos com lágrimas nos olhos, com o coração partido, mas também fiz outros acreditando que estou dando meu melhor e o Bee é grato por isso. Que vou chegar no fim apenas sabendo que fiz o necessário, o mínimo pra ele não sentir dor.
Muitas vezes sou egoísta e não quero permitir que Deus o leve, outras agradeço por mais um dia estar com ele, ouvir seu latido, sua respiração, alimenta-lo, abraça-lo.
Tenho lido muitas matérias e inúmeros depoimentos de quem perdeu para o câncer hoje posso sentir 10% da dor que meu pai sofreu ao saber que dois dos seus cinco filhos também iriam perder pra essa doença que nos deixa frágil e imune diante dela.
Continuamos a luta á cada dia, cada manhã .... não posso ter a garantia que vamos vencer, mas posso ter a certeza que a vida é tão frágil, tão curta ....
Ainda tenho muito que lutar e aprender, queria ter a metade da força e a bondade que meu pequeno tem e me mostra com mais um dia de vida aqui na terra.
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