Chegamos á clínica e o Bee como sempre, conquistando á todos com sua simpatia e bom humor, entrou como se estivesse acostumado aquilo tudo. Muito me admira a força e a simplicidade dele, mas também me admiro pois esta não deveria ser a conduta de um cão que estava tão perto de uma mesa de cirurgia novamente. Ele conhecia o local e subiu as escadas junto de uma das estagiárias na maior felicidade .... naquele momento sabia que Deus estava com ele !
Passei a manhã em casa com meu bebe boxer, brincamos, descansamos .... ele tinha a mãe dele só pra ele aquele dia, e isso parecia faze-lo tão feliz, e um pouco á mim por saber que estava motivando essa felicidade que há alguns meses desaparecera pois meu tempo se resumia no meu mais velho, é tão errado mas a gente acaba achando que apenas o doente precisa do amor, carinho da dedicação e não é assim, o London precisa de mim também.
O Bee teve alta ás 14:00, e para meu espanto ele estava ACORDADO e todo feliz, abanando o rabicó pra todos. Claro que ele arrancou o sorriso da equipe toda e a admiração pela força em vencer mais uma luta contra o câncer.
A operação não foi muito tranquila, teve que ser feita com um bisturi elétrico pois a área em que se encontrava os tumores já não tinha mais pele para suturar, ele teve uma parada respiratória por 10 minutos e voltou apenas com massagem.
Isso me assustou, pois os riscos de vida para uma próxima cirurgia é grande e provavelmente não será realizada para não perdermos ele.
O diagnóstico do câncer também não era o melhor; eu sabia que esta seria uma cirurgia paliativa, mas confesso que apesar de tudo tenho a expectativa que o médico diga que não há mais tumor, que ele sumiu dali, mas não aconteceu, o tumor principal está alojado na medula o que impossibilita a remoção total sem atingir a parte da medula. Além de uma metástase no ânus.
Depois de 10 dias voltaremos á clínica, mas o médico já adiantou que fará alguns exames renal para verificar se a condição dos rins aceita algumas sessões de quimioterapia.
Voltei pra casa aliviada por ele estar comigo voltando pro nosso lar e também por saber que esses 10 dias seriam como " férias " para nós á respeito do câncer, por 10 dias ele não seria a preocupação principal e os curativos não teriam mais sangue, e nem banhos no bumbum para dormir ... apenas uma centena de remédios quais o Bee já estava cansado e começando à relutar.
Muitas vezes esses olhinhos redondos e cansados parecem me pedir pra deixa-lo ir, seguir seu caminho em outro lugar, outras a força e a luta dele me faz acreditar cada dia mais que tenho que cuidar e protege-lo até que nada mais possa ser feito, até que nenhuma cirurgia possa ser realizada, que nenhum curativo cesse a hemorragia, até que nenhum remédio mais faça efeito, nenhuma oração traga paz ....
Sei que logo mais ele vai parar de andar, as patas traseiras estão cada vez mais fracas, mas ainda assim ás vezes ele arrisca dar uma corridinha toda torta, mas que se torna engraçada diante do nosso olhar cheio de esperança.E o dia que isso acontecer que Deus de sabedoria pro pequeno entender que precisa de ajuda, e me de muita força nos braços para carrega-lo para onde ele quiser ir, farei da vida dele a mais agradável na maneira do possível e lutarei por ela, como se fosse pela minha, ou ainda mais, pois tudo que mais quero é meu amigo por perto me ensinando o que é amor incondicional pelo ser inocente e puro.
Bee, obrigada por me escolher pra cuidar de você !!!!
" Um dia o câncer vai ser apenas um signo "
novembro 04, 2013
A vida deveria ser " normal " ...
Muitas vezes me pego pensando quando voltarei á ter uma vida " normal ", á dar mais atenção para o meu boxer mais novo, não acordar mais no meio da noite assustada, poder sair de casa junto com os demais sem se preocupar que ele vai ficar sozinho, sem medos e pânico. Mas a resposta vem imediatamente : quando ele se for .... sei que daqui em diante nada mais vai ser fácil, nada será como antes, e diante desta resposta automática eu prefiro me anular e continuar a luta contra o câncer.
Uma doença que me ensinou que paciência e amor não tem medida, mas me ensinou também que ela leva quem tanto amamos tão rápido, que a evolução é em segundos, e a evolução me assusta á cada dia.
O tumor aumentou muito, começou á sangrar e o cheiro era péssimo. Eu não tinha muito o que fazer além dos curativos, resolvi acrescentar banhos de chuveirinho todas as noites no local do tumor, e comprei fraldas noturnas anti odores, era tudo que eu poderia fazer pra amenizar aquele desconforto que ele estava sentindo, e era nítido seu mal estar, após os banhos ele parecia me agradecer e aí sim, dormia limpinho e tranquilo. As fraldas noturnas começaram á serem usadas pois o sangue era bastante e ao amanhecer aparecia na fralda toda.
Nunca perdoei o pai dele por muita coisa que nos machucou, mas diante do Bee e do progresso da doença me vi na obrigação e no mínimo de humanismo em avisa-lo sobre a situação atual. Não pensei em mim, apenas no Bee o quanto ficaria feliz em ver seu pai novamente.
Ele veio visita-lo num domingo á tarde com junto da sua filhinha de 04 anos. O Beethoven o recebeu muito bem, como faz com todas as visitas, mas por incrivel gostou muito da garotinha e ela dele ! Ela me questionou sobre as fraldas, se ele usava porque fazia cocô .... expliquei que ele estava muito dodói e como toda criança ingênua e carinhosa com sua expressão preocupada logo afirmou : " amanhã volto aqui e vou trazer meu remédio de gotinhas pra dar pra ele, ele vai ficar bom pra sempre !!!", não tive como nao chorar nem como lhe explicar que ele não ia ficar bom, concordei e agradeci dizendo que ele vai ficar ótimo !
É complicado você lidar com a morte tão óbvia e próxima, acho que eu ainda não comecei á pensar nisso como uma certeza.
Na última manhã de quinta feira ( 31/10 ) precisei sair para resolver umas pendencias do trabalho que acabei deixando de lado pois o Bee era muito mais importante. Minha mãe estava em casa com uma prima, e não vi problema algum em deixa-lo com ela, também não vi necessidade de colocar o " colar " no pescoço dele pois tinha gente por perto, ele não faria nada. Mas como ás vezes a gente tem essa mania de achar que tudo " está sobre controle " eu errei .... cheguei em casa e minha mãe relativamente calma para não me assustar disse que o Bee tinha aprontado enquanto ela estava no quintal com a prima. Desci do carro ainda tranquila achando que ele tinha tentado lamber o tumor ( o que tentava fazer quando deixamos ele sozinho algumas vezes sem o colar ), e foi quando minha mãe me disse que ele em segundos arrancou o tumor com os dentes e tinha muito sangue.
Me desesperei, coloquei ele no banho pra tirar todo aquele sangue e ter uma proporção do ferimento, mas parecia não adiantar, o sangue não parava ! Ligamos para o médico e coloquei ele no carro e corri.
O caminho até a clínica parecia não acabar mais, todos os sinais fechados, e ele sangrando .... cheguei em pânico, não sabia o quanto ele tinha perdido de sangue e o quanto ainda poderia perder. Colocamos na maca, e ele calmamente foi medicado para diminuir a hemorragia e foi feito um curativo no local que eu não poderia trocar até o dia seguinte. O médico disse que ele seria operado no dia seguinte pela manhã, que esta operação ia acontecer de qualquer forma, mas com o ocorrido não poderia ser adiada.
Não existia uma porcentagem de risco de vida desenhada em um gráfico, mas este risco é real á partir do momento em que as cirurgias são tão próximas uma das outras. Dois meses e meu pequeno estaria fazendo a terceira cirurgia !
Como que um corpinho tão magrinho cheio de probleminhas ia aguentar mais essa ? Confesso que entrei em desespero, passei a tarde deitada ao lado dele chorando de soluçar e pedindo pra ele ser mais uma vez forte. Ele estava sendo forte há tanto tempo que meu pedido parecia até covardia .... eu deveria ter entregado nas mãos de Deus e pedido pra Ele fazer o que fosse de melhor e mais confortante para o pequeno, mas meu egoísmo não permitiu ... rezei pedindo força pra nós dois.
Uma doença que me ensinou que paciência e amor não tem medida, mas me ensinou também que ela leva quem tanto amamos tão rápido, que a evolução é em segundos, e a evolução me assusta á cada dia.
O tumor aumentou muito, começou á sangrar e o cheiro era péssimo. Eu não tinha muito o que fazer além dos curativos, resolvi acrescentar banhos de chuveirinho todas as noites no local do tumor, e comprei fraldas noturnas anti odores, era tudo que eu poderia fazer pra amenizar aquele desconforto que ele estava sentindo, e era nítido seu mal estar, após os banhos ele parecia me agradecer e aí sim, dormia limpinho e tranquilo. As fraldas noturnas começaram á serem usadas pois o sangue era bastante e ao amanhecer aparecia na fralda toda.
Nunca perdoei o pai dele por muita coisa que nos machucou, mas diante do Bee e do progresso da doença me vi na obrigação e no mínimo de humanismo em avisa-lo sobre a situação atual. Não pensei em mim, apenas no Bee o quanto ficaria feliz em ver seu pai novamente.
Ele veio visita-lo num domingo á tarde com junto da sua filhinha de 04 anos. O Beethoven o recebeu muito bem, como faz com todas as visitas, mas por incrivel gostou muito da garotinha e ela dele ! Ela me questionou sobre as fraldas, se ele usava porque fazia cocô .... expliquei que ele estava muito dodói e como toda criança ingênua e carinhosa com sua expressão preocupada logo afirmou : " amanhã volto aqui e vou trazer meu remédio de gotinhas pra dar pra ele, ele vai ficar bom pra sempre !!!", não tive como nao chorar nem como lhe explicar que ele não ia ficar bom, concordei e agradeci dizendo que ele vai ficar ótimo !
É complicado você lidar com a morte tão óbvia e próxima, acho que eu ainda não comecei á pensar nisso como uma certeza.
Na última manhã de quinta feira ( 31/10 ) precisei sair para resolver umas pendencias do trabalho que acabei deixando de lado pois o Bee era muito mais importante. Minha mãe estava em casa com uma prima, e não vi problema algum em deixa-lo com ela, também não vi necessidade de colocar o " colar " no pescoço dele pois tinha gente por perto, ele não faria nada. Mas como ás vezes a gente tem essa mania de achar que tudo " está sobre controle " eu errei .... cheguei em casa e minha mãe relativamente calma para não me assustar disse que o Bee tinha aprontado enquanto ela estava no quintal com a prima. Desci do carro ainda tranquila achando que ele tinha tentado lamber o tumor ( o que tentava fazer quando deixamos ele sozinho algumas vezes sem o colar ), e foi quando minha mãe me disse que ele em segundos arrancou o tumor com os dentes e tinha muito sangue.
Me desesperei, coloquei ele no banho pra tirar todo aquele sangue e ter uma proporção do ferimento, mas parecia não adiantar, o sangue não parava ! Ligamos para o médico e coloquei ele no carro e corri.
O caminho até a clínica parecia não acabar mais, todos os sinais fechados, e ele sangrando .... cheguei em pânico, não sabia o quanto ele tinha perdido de sangue e o quanto ainda poderia perder. Colocamos na maca, e ele calmamente foi medicado para diminuir a hemorragia e foi feito um curativo no local que eu não poderia trocar até o dia seguinte. O médico disse que ele seria operado no dia seguinte pela manhã, que esta operação ia acontecer de qualquer forma, mas com o ocorrido não poderia ser adiada.
Não existia uma porcentagem de risco de vida desenhada em um gráfico, mas este risco é real á partir do momento em que as cirurgias são tão próximas uma das outras. Dois meses e meu pequeno estaria fazendo a terceira cirurgia !
Como que um corpinho tão magrinho cheio de probleminhas ia aguentar mais essa ? Confesso que entrei em desespero, passei a tarde deitada ao lado dele chorando de soluçar e pedindo pra ele ser mais uma vez forte. Ele estava sendo forte há tanto tempo que meu pedido parecia até covardia .... eu deveria ter entregado nas mãos de Deus e pedido pra Ele fazer o que fosse de melhor e mais confortante para o pequeno, mas meu egoísmo não permitiu ... rezei pedindo força pra nós dois.
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