outubro 20, 2013

A recidiva do tumor

Desde o começo dos curativos havia uma pequena bolha de coágulo ao meio de todo aquele músculo exposto. 
Nunca me preocupei com ela, uma hora ia sumir, assim como outros pequenos detalhes que acompanhavam a ferida.
Ele estava tão disposto, comendo bem. O médico disse que devido ao ferimento talvez ele tivesse complicações ao evacuar, e que teria que tomar laxante, mas meu pequeno sempre foi tão forte e se adaptou tanto ás limitações que obvio que fazia e faz seus cocos sem nenhuma dificuldade.
Apenas um detalhe me preocupava : ele tinha perdido 50% da força e equilíbrio da pata esquerda traseira. Nos primeiros dias achei que pudesse ser da anestesia, mas não poderia ser, a região cirúrgica era na pata direita.
Isso me preocupava, mas ao mesmo tempo sabia que era uma sequela da cirurgia, todos me confirmavam isso.

Retornamos a consulta após cirurgia, feita de 15 em 15 dias e mencionei os dois fatores que me intrigavam : a pata e o coágulo de sangue.
Até hoje penso se fiz certo em questionar ou deveria ficar na dúvida, afinal ele estava tão bem, não seria um coágulo que ia atrapalhar, o que eu mais queria ouvir do médico eram boas notícias, e o elogio á forma que eu vinha tratando e cuidando do Bee.
Pronta pra escutar que logo ele ia tirar aquela fralda e que a ferida estava cicatrizando, veio mais uma bomba ! Talvez a pior desde o diagnóstico; a perna poderia ser reflexo de uma metástase na coluna ou medula, prendendo a mesma e fazendo ele sentir dor. Metástase na coluna ? Como isso era possível ? Ele estava ótimo, não parecia ter dores. Como poderia surgir uma metástase tão longe do tumor em si ... fiquei mais uma vez calada, pensando que não era isso, que o nervo deveria ter sido afetado na cirurgia, algo tinha acontecido, mas nunca uma metástase !
Aquilo já me deixou fora do ar por minutos, parecia a consulta mais longa de toda vidinha dele, queria que os exames acabassem e que ele saísse do meio dos estagiários e viesse embora pra casa. Não via a hora daquele médico sentar e me contar tudo que estava acontecendo, que tipo de exame iria fazer e qual o protocolo que ele usaria para acabar com a maldita metástase.
Minha cabeça pensava duzentas coisas, e eu só via ele frágil e paciente em cima daquela mesa, sem saber o que fazia ali. Com tanta força e um espírito elevado eu não poderia me sentir mal ao lado dele, pois tenha a certeza que ele iria perceber.
Mas antes do final da consulta o médico olhando o ferimento disse que a cicatrização estava indo bem, e que aquela bolinha de coágulo não  se tratava de um coágulo em si, se tratava de um tumor maligno. 

Era tudo que eu queria ouvir : METÁSTASE + RECIDIVA ! 
Perguntei quando seria a nova operação, o que faríamos ? Não houve resposta positiva, se há uma recidiva do tumor, não há mais cura, ele se tornou mais forte que o organismo dele, já esta na corrente sanguínea.
Questionei á respeito da quimio, mas seria apenas uma opção paliativa, não ha mais chances de cura.

Eu não acreditava, eu não poderia acreditar que de fato essa doença não gera cura e sim milagres apenas, e que o milagre não foi feito no meu pequeno.
Me culpei por pedir á Deus que não levasse ele pela insuficiência renal, agora ele estava com uma doença bem pior que estava se espalhando pelo corpinho dele.
Acho que neste momento fiz tantas perguntas, queria tanto uma resposta que o médico se irritou um pouco comigo.

Fui pra casa arrasada .... mas não queria demonstrar na frente da minha mãe que eu estava desesperada, que eu não via saída, e que eu precisava fazer alguma coisa ! Mas fazer o que ? Eu não poderia fazer nada além do que já estava fazendo.
Muitas vezes me pergunto o que meu querido e amado Beethoven fez á Deus pra merecer tanto sofrimento, aonde estava Deus ? Eu precisava da misericórdia dele, meu pequeno estava tão bem, mal sabe que tem um câncer muito agressivo.
Ao mesmo tempo tenho certeza que Deus só está querendo me ensinar algo, ensinar que não somos nada, não temos nada. Eu precisava entender que o que fica é o bem que fazemos ao próximo, e eu precisava perder pessoas ( meu chefe e minha tia ) pra entender isso ?
Tanto precisava que ainda preciso, ele vai levar meu pequeno que sempre fez o bem, um anjo .... só pra eu entender de uma vez que eu preciso fazer o bem, eu preciso abraçar uma causa, ajudar uma criança com câncer, enfim .... eu preciso passar por isso !

Já fiz inúmeros curativos com lágrimas nos olhos, com o coração partido, mas também fiz outros acreditando que estou dando meu melhor e o Bee é grato por isso. Que vou chegar no fim apenas sabendo que fiz o necessário, o mínimo pra ele não sentir dor.
Muitas vezes sou egoísta e não quero permitir que Deus o leve, outras agradeço por mais um dia estar com ele, ouvir seu latido, sua respiração, alimenta-lo, abraça-lo.

Tenho lido muitas matérias e inúmeros depoimentos de quem perdeu para o câncer  hoje posso sentir 10% da dor que meu pai sofreu ao saber que dois dos seus cinco filhos também iriam perder pra essa doença que nos deixa frágil e imune diante dela.

Continuamos a luta á cada dia, cada manhã .... não posso ter a garantia que vamos vencer, mas posso ter a certeza que a vida é tão frágil, tão curta ....
Ainda tenho muito que lutar e aprender, queria ter a metade da força e a bondade que meu pequeno tem e me mostra com mais um dia de vida aqui na terra.


Setembro 01, 2013

Todos os dias após o diagnóstico tem sido em função do Beethoven. São muitos cuidados e inúmeros remédios, diante da reabilitação dele diante de duas cirurgias e uma doença terrível esqueci que tenho outro boxer em casa, o London de um aninho, me afastei muito do bebe, e passando os dias ele demonstrou carência. Procurei passar o dia com o Bee e á noite minha mãe cuida dele pra que eu fique com o bebe. Mas o medo de perder é tão grande que muitas vezes eu esquecia o London no outro quarto e quando voltava ele já estava dormindo.
Eu nunca tive problema em cuidar da ferida cirúrgica  passo longos minutos com ele enquanto faço o protocolo, isso sempre foi gratificante. Ele não sente dor alguma, tanto que muitas vezes me deixou falando sozinha durante o curativo, ele dorme ! Quando termino e coloco a fraldinha nele, dou um abraço bem forte e agradeço pelo cão nobre e bom que é.

Eu tirei fotos da ferida todos os dias, e me surpreendia de como o organismo fazia seu papel, era nítido mesmo sem as fotos da pele crescendo e a ferida diminuindo á cada dia. 
Estávamos livres ! Claro que ainda teríamos que fazer um ultrassom para ter a certeza que o tumor havia desaparecido, mas sempre tive a convicção que não havia mais nada de ruim nele, e que se acontecesse uma recidiva do tumor seria muito depois, e a quimio acabaria com isso.
Mas pensar em quimio também não era meu forte, tinha muito medo dos efeitos colaterais, uma vez que o rim não suportaria tanta medicação. A verdade que eu só pensava em fechar a ferida e voltar a ter nossa vida de sempre, nos três !


Agosto 06, 2013 - Segunda Cirurgia

Ele se recuperou tão bem, estava tão esperto, que fazer os curativos era uma espécie de triunfo pra mim, á cada dia a sutura diminuía e eu tinha a bendita fé que estávamos chegando ao fim desse tormento.
Eu já não tinha mais emprego, e cuidava dele o dia todo ... alimentação, curativos, remédios, conforto; tudo era em função do meu amado cão.

Vi que a vida poderia voltar a ser como sempre foi, que meu amigo estava ali, forte e se mostrando incapaz de se destruir pela doença. 
Nessas horas eu me lembrava quanto ele é importante pra mim, o quanto já se doou ... nas milhares de vezes que cheguei tarde em casa e ele acordava pra se encontrar comigo no corredor, nas tantas vezes que eu chorava e ele vinha me lamber, lambia tanto que acabava me tirando risos, dos dias sozinha em que eu pedia pizza e lá estava ele na frente do sofá me esperando com o prato pra ganhar uns pedacinhos ( que nunca lhe fizeram bem pela insuficiência renal ), me lembro dele dormindo em minha cama, ocupando o espaço todo. 
Sempre foi obediente e amigo, sempre quietinho, dormindo .... adora os passeios de carro. Pode deixar o portão aberto que nada acontece, mas não deixe a porta do seu carro aberta, ele é o primeiro á entrar. Acostumei ele assim, porque os rins o deixavam exausto durante as caminhadas, era muito pra ele conseguir dar a volta no quarteirão, era um esforço extremamente visível.

Em duas semanas ele estava sem a sutura e pronto para próxima cirurgia. Esta sim era mais tranquila pra mim, a retirada de um tumor benigno perto da cauda.
Sabia que talvez ele tivesse que fazer enxerto  pois a área contaminada pelo tumor era muito grande, e não poderiam usar a mesma pele, provavelmente a retirada de pele seria da coluna, o que traria dores e uma recuperação com muitos cuidados.

Quando fui busca-lo a mesma cena, ele dorminhoco com enfermeiras ao lado dele medindo os batimentos e a temperatura. Cheguei e logo dei um beijo n patinha dele, estava gelada, ele estava gelado. Com um curativo grande na região traseira o médico me mostrou que os cuidados deveriam ser de um home care, pois não foi necessário o enxerto, mas a pele puxada para sutura era pouca.
Eram uns caninhos em azul pequeninos que cobriam a linha, não saberia contar quantos pontos, mas a área era enorme. Confesso que mudei minha opinião em pensar que esta cirurgia seria mais branda que a anterior. 

Dois dias depois a ferida cirúrgica não resistiu aos pontos, e foi abrindo cada dia mais, e no meio disso já não havia mais pontos, era uma ferida só, aproximadamente um palmo de músculos á vista. 
Diante deste fato me vi uma leiga em enfermagem, o que eu iria fazer com aquele buraco gigante ? Uma nova sutura ? Iria cicatrizar um dia ? E as infecções ? Parei e pensei no que fazer, se a única coisa que eu sei na minha vida é trabalhar com aviões, e ele não era uma aeronave que eu poderia substituir ou entrar em manutenção, o coração dele batia, e os pulmões faziam seu papel, porém tinha uma cratera lunar na poupança do meu cão !
Pra minha não surpresa o médico não fez uma nova sutura, e mudou o protocolo de curativos cutâneo. 
Pronto, eu passava o dia fazendo isso .... ele começou á usar fraldas, pois a região em exposição era grande e pegar uma infecção não era nada difícil.

Pedi á Deus que me desse esperanças para acreditar que aquela enorme ferida cirúrgica iria um dia cicatrizar. Sem data prevista para fechar a mesma, fui me dedicando cada dia mais á vida frágil que o pequeno leva.
Eu fui noiva de uma pessoa que comprou o Beethoven no intuito de me agradar, mas nunca cuidou dele de forma humana. O Bee sofria muito, vivia mudando de casa e na última passou uns 03 anos dentro de um canil qual não tinha visão alguma pra nada, me lembro que havia um buraco no muro que dava pra rua, e que muitas vezes era essa a diversão dele, colocar seu largo focinho no buraco e sentir o cheiro da liberdade.
Quando nos separamos ( eu e o pai dele ), ganhei um presente : o Beethoven ! Veio morar conosco em março de 2007, cheio de saúde e com liberdade, ele desfrutou muito do espaço e conforto, mas a vida deu uma rasteirinha na felicidade dele, e logo que cheguei dos EUA ele ficou muito doente, diagnosticado como insuficiência renal crônica. Todos os dias á partir desta data pensei que pudesse perde-lo, mas ele chegou aonde está superando muitas dores, náuseas, noites sem dormir, cansaço e muita sonolência; eram os efeitos da doença.



Agosto 23, 2013 - DIAGNÓSTICO

É estranho .... até algo ruim não acontecer na sua vida, você nunca parou pra pensar que de fato isso um dia poderia acontecer. E quando acontece, tudo muda, você se questiona, tenta entender, mas algumas coisas foram feitas para não ter explicação e sim aceitar, por mais difícil que seja. E se você consegue aceitar já é um ser humano muito além de todos os outros, mas eu tenho certeza que não sou este ser, e estou muito longe de ser.

Diante de uma doença terrível e seu diagnóstico você sente que abriu um buraco nos seus pés, parece que o mundo congela e que tudo que você está ouvindo é um engano, que tudo vai ficar bem. 
Minha fé não me permitiu acreditar no que eu estava ouvindo : maligno, metástase,  quimioterapia, fim.
Eu queria respostas, saídas ... tinha que haver protocolos á serem seguidos, remédios, operações .... tinha que haver vida no lugar daquele câncer maldito !

Foi em uma sexta-feira antes do aniversário do Beethoven, observei ele como em todas as manhãs antes de ir trabalhar. Ele parecia " normal ", mas algo não me pareceu normal, um dos testículos estava extremamente aumentado, o que me causou pânico. 
Larguei tudo ... no mesmo dia não fui trabalhar, eu chorava pois tinha certeza que ali havia uma doença qual convivo desde os 05 anos quando perdi meu irmão vítima de um tumor malígno no cerebro.

Após o ultrassom, começou nossa luta, e a primeira cirurgia marcada um dia depois do seu aniversário de 11 anos.
Celebramos com um amor muito grande, mas com o coração apertado. Mas eu sabia que a cirurgia ia ser tranquila e que logo estaríamos livre daquele pesadelo.
Sempre pedi á Deus pra não levar o Bee da insuficiência renal que ele carrega desde os 06 anos, e que está sob controle desde então, mas nunca imaginei que Ele poderia leva-lo de outra forma mais agressiva. BE CAREFUL THAT WHAT YOU WISH !!!

Fui busca-lo e ainda estava sonolento devido á anestesia, estava ciente que os cuidados á partir de então seriam focados 100% para uma qualidade de vida, mas minha alegria ao ve-lo novamente e recebendo alta era enorme, eu sabia que ele ia voltar pra mim.
Acho que na hora não e preocupei com o resultado da cirurgia, queria era sair da clinica e grudar nele, beijar suas patinhas e mostrar o quanto o amava. 
O câncer me fez aprender que quando um médico se cala e pede pra você sentar as notícias não são as melhores, mas naquela época eu não sabia nada disso, não sabia que essa doença arrasa com todo mundo.

O tumor era malígno, e o pequeno perdeu muito sangue, era uma espécie rara, e muito agressiva. Estava enraizado e não foi possível retirar toda massa tumoral, provavelmente após exames talvez fosse necessário uma quimioterapia. Minha mãe estava comigo e foi totalmente contra, eu não dei uma palavra, eu só queria não acreditar que eu estava ouvindo aquilo.