Muitas vezes me pego pensando quando voltarei á ter uma vida " normal ", á dar mais atenção para o meu boxer mais novo, não acordar mais no meio da noite assustada, poder sair de casa junto com os demais sem se preocupar que ele vai ficar sozinho, sem medos e pânico. Mas a resposta vem imediatamente : quando ele se for .... sei que daqui em diante nada mais vai ser fácil, nada será como antes, e diante desta resposta automática eu prefiro me anular e continuar a luta contra o câncer.
Uma doença que me ensinou que paciência e amor não tem medida, mas me ensinou também que ela leva quem tanto amamos tão rápido, que a evolução é em segundos, e a evolução me assusta á cada dia.
O tumor aumentou muito, começou á sangrar e o cheiro era péssimo. Eu não tinha muito o que fazer além dos curativos, resolvi acrescentar banhos de chuveirinho todas as noites no local do tumor, e comprei fraldas noturnas anti odores, era tudo que eu poderia fazer pra amenizar aquele desconforto que ele estava sentindo, e era nítido seu mal estar, após os banhos ele parecia me agradecer e aí sim, dormia limpinho e tranquilo. As fraldas noturnas começaram á serem usadas pois o sangue era bastante e ao amanhecer aparecia na fralda toda.
Nunca perdoei o pai dele por muita coisa que nos machucou, mas diante do Bee e do progresso da doença me vi na obrigação e no mínimo de humanismo em avisa-lo sobre a situação atual. Não pensei em mim, apenas no Bee o quanto ficaria feliz em ver seu pai novamente.
Ele veio visita-lo num domingo á tarde com junto da sua filhinha de 04 anos. O Beethoven o recebeu muito bem, como faz com todas as visitas, mas por incrivel gostou muito da garotinha e ela dele ! Ela me questionou sobre as fraldas, se ele usava porque fazia cocô .... expliquei que ele estava muito dodói e como toda criança ingênua e carinhosa com sua expressão preocupada logo afirmou : " amanhã volto aqui e vou trazer meu remédio de gotinhas pra dar pra ele, ele vai ficar bom pra sempre !!!", não tive como nao chorar nem como lhe explicar que ele não ia ficar bom, concordei e agradeci dizendo que ele vai ficar ótimo !
É complicado você lidar com a morte tão óbvia e próxima, acho que eu ainda não comecei á pensar nisso como uma certeza.
Na última manhã de quinta feira ( 31/10 ) precisei sair para resolver umas pendencias do trabalho que acabei deixando de lado pois o Bee era muito mais importante. Minha mãe estava em casa com uma prima, e não vi problema algum em deixa-lo com ela, também não vi necessidade de colocar o " colar " no pescoço dele pois tinha gente por perto, ele não faria nada. Mas como ás vezes a gente tem essa mania de achar que tudo " está sobre controle " eu errei .... cheguei em casa e minha mãe relativamente calma para não me assustar disse que o Bee tinha aprontado enquanto ela estava no quintal com a prima. Desci do carro ainda tranquila achando que ele tinha tentado lamber o tumor ( o que tentava fazer quando deixamos ele sozinho algumas vezes sem o colar ), e foi quando minha mãe me disse que ele em segundos arrancou o tumor com os dentes e tinha muito sangue.
Me desesperei, coloquei ele no banho pra tirar todo aquele sangue e ter uma proporção do ferimento, mas parecia não adiantar, o sangue não parava ! Ligamos para o médico e coloquei ele no carro e corri.
O caminho até a clínica parecia não acabar mais, todos os sinais fechados, e ele sangrando .... cheguei em pânico, não sabia o quanto ele tinha perdido de sangue e o quanto ainda poderia perder. Colocamos na maca, e ele calmamente foi medicado para diminuir a hemorragia e foi feito um curativo no local que eu não poderia trocar até o dia seguinte. O médico disse que ele seria operado no dia seguinte pela manhã, que esta operação ia acontecer de qualquer forma, mas com o ocorrido não poderia ser adiada.
Não existia uma porcentagem de risco de vida desenhada em um gráfico, mas este risco é real á partir do momento em que as cirurgias são tão próximas uma das outras. Dois meses e meu pequeno estaria fazendo a terceira cirurgia !
Como que um corpinho tão magrinho cheio de probleminhas ia aguentar mais essa ? Confesso que entrei em desespero, passei a tarde deitada ao lado dele chorando de soluçar e pedindo pra ele ser mais uma vez forte. Ele estava sendo forte há tanto tempo que meu pedido parecia até covardia .... eu deveria ter entregado nas mãos de Deus e pedido pra Ele fazer o que fosse de melhor e mais confortante para o pequeno, mas meu egoísmo não permitiu ... rezei pedindo força pra nós dois.
Nenhum comentário:
Postar um comentário