Ele se recuperou tão bem, estava tão esperto, que fazer os curativos era uma espécie de triunfo pra mim, á cada dia a sutura diminuía e eu tinha a bendita fé que estávamos chegando ao fim desse tormento.
Eu já não tinha mais emprego, e cuidava dele o dia todo ... alimentação, curativos, remédios, conforto; tudo era em função do meu amado cão.
Vi que a vida poderia voltar a ser como sempre foi, que meu amigo estava ali, forte e se mostrando incapaz de se destruir pela doença.
Nessas horas eu me lembrava quanto ele é importante pra mim, o quanto já se doou ... nas milhares de vezes que cheguei tarde em casa e ele acordava pra se encontrar comigo no corredor, nas tantas vezes que eu chorava e ele vinha me lamber, lambia tanto que acabava me tirando risos, dos dias sozinha em que eu pedia pizza e lá estava ele na frente do sofá me esperando com o prato pra ganhar uns pedacinhos ( que nunca lhe fizeram bem pela insuficiência renal ), me lembro dele dormindo em minha cama, ocupando o espaço todo.
Sempre foi obediente e amigo, sempre quietinho, dormindo .... adora os passeios de carro. Pode deixar o portão aberto que nada acontece, mas não deixe a porta do seu carro aberta, ele é o primeiro á entrar. Acostumei ele assim, porque os rins o deixavam exausto durante as caminhadas, era muito pra ele conseguir dar a volta no quarteirão, era um esforço extremamente visível.
Em duas semanas ele estava sem a sutura e pronto para próxima cirurgia. Esta sim era mais tranquila pra mim, a retirada de um tumor benigno perto da cauda.
Sabia que talvez ele tivesse que fazer enxerto pois a área contaminada pelo tumor era muito grande, e não poderiam usar a mesma pele, provavelmente a retirada de pele seria da coluna, o que traria dores e uma recuperação com muitos cuidados.
Quando fui busca-lo a mesma cena, ele dorminhoco com enfermeiras ao lado dele medindo os batimentos e a temperatura. Cheguei e logo dei um beijo n patinha dele, estava gelada, ele estava gelado. Com um curativo grande na região traseira o médico me mostrou que os cuidados deveriam ser de um home care, pois não foi necessário o enxerto, mas a pele puxada para sutura era pouca.
Eram uns caninhos em azul pequeninos que cobriam a linha, não saberia contar quantos pontos, mas a área era enorme. Confesso que mudei minha opinião em pensar que esta cirurgia seria mais branda que a anterior.
Dois dias depois a ferida cirúrgica não resistiu aos pontos, e foi abrindo cada dia mais, e no meio disso já não havia mais pontos, era uma ferida só, aproximadamente um palmo de músculos á vista.
Diante deste fato me vi uma leiga em enfermagem, o que eu iria fazer com aquele buraco gigante ? Uma nova sutura ? Iria cicatrizar um dia ? E as infecções ? Parei e pensei no que fazer, se a única coisa que eu sei na minha vida é trabalhar com aviões, e ele não era uma aeronave que eu poderia substituir ou entrar em manutenção, o coração dele batia, e os pulmões faziam seu papel, porém tinha uma cratera lunar na poupança do meu cão !
Pra minha não surpresa o médico não fez uma nova sutura, e mudou o protocolo de curativos cutâneo.
Pronto, eu passava o dia fazendo isso .... ele começou á usar fraldas, pois a região em exposição era grande e pegar uma infecção não era nada difícil.
Pedi á Deus que me desse esperanças para acreditar que aquela enorme ferida cirúrgica iria um dia cicatrizar. Sem data prevista para fechar a mesma, fui me dedicando cada dia mais á vida frágil que o pequeno leva.
Eu fui noiva de uma pessoa que comprou o Beethoven no intuito de me agradar, mas nunca cuidou dele de forma humana. O Bee sofria muito, vivia mudando de casa e na última passou uns 03 anos dentro de um canil qual não tinha visão alguma pra nada, me lembro que havia um buraco no muro que dava pra rua, e que muitas vezes era essa a diversão dele, colocar seu largo focinho no buraco e sentir o cheiro da liberdade.
Quando nos separamos ( eu e o pai dele ), ganhei um presente : o Beethoven ! Veio morar conosco em março de 2007, cheio de saúde e com liberdade, ele desfrutou muito do espaço e conforto, mas a vida deu uma rasteirinha na felicidade dele, e logo que cheguei dos EUA ele ficou muito doente, diagnosticado como insuficiência renal crônica. Todos os dias á partir desta data pensei que pudesse perde-lo, mas ele chegou aonde está superando muitas dores, náuseas, noites sem dormir, cansaço e muita sonolência; eram os efeitos da doença.
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