janeiro 08, 2014

You are my sunshine

As férias que tanto desejamos não se tornou real, assim como sonhos ficou apenas em meus pensamentos e desejos. O câncer voltou em menos de uma semana, e foi crescendo com uma enorme proporção, que não havia mais meios para para-lo.
Ele ainda não sentia dores, mas decidimos entrar com remédios para que não existisse a possibilidade da dor aumentar, ele não merecia passar dor alguma além de tudo que sofreu a vida toda.

Sabíamos que nada mais poderia ser feito, ele estava com anemia moderada e com o tempo provavelmente se transformou em profunda. Comia muito bem, mas não ganhava peso, só perdia. Sua cabecinha foi afinando, os olhos saltando e um enorme buraco em seu peitoral. As caminhadas até o quintal se limitavam em apenas fazer suas necessidades, e muitas vezes ele ali ficava por cansaço, deitava no chão e esperava se recuperar para voltar pra dentro de casa. Muitas vezes eu o carregava, subia as escadas com ele no colo, estava tão leve, acredito que não pesava nem 20kg mais.
A dor de ver quem o que você ama nesta situação é enorme ... a impotência diante da doença é desesperadora, mas você vai seguindo mesmo sabendo que não existe nenhuma saída, nenhuma luz.

Mantive ele nos últimos dias com a melhor qualidade de vida possível, tudo era voltado á ele, e eu não tinha mais vida social, acordava no meio da noite pois ele muitas vezes não dormia.
O Bee adorava bife de fígado, e eu fazia questão de comprar todos os dias e cozinhar, assim ficava bem fresquinho. Coloquei água no quarto pra facilitar dele andar até a cozinha, claro que ele adorou !!! Eu me sentia incapaz de ajudá-lo, me sentia mal por isso.
Além que meu mais novo estava totalmente abandonado ... ele não existia mais pra nós, poderia fazer o que quizesse, chamar a atenção, mas diante de tudo que estava acontecendo não havia espaço pra ele.

Nunca me veio á cabeça fazer eutanasia no Beethoven, sempre desejei uma morte natural, mesmo que o câncer o impedisse de ter uma morte digna eu acreditava que o fim enviado por Deus em algum momento iria chegar, mas nunca pensei que eu fosse adiantar este momento. Porém quando seu amado boxer te pede socorro com os olhos você não tem outra reação á não ser não deixar que ele sofra ainda mais, você começa á acreditar que ele longe de você o fará mais feliz do que perto e sem qualidade de vida alguma.
Essa decisão não é premeditada, pelo menos não foi comigo .... levei meu mais novo para tomar vacina e conversei com o médico á respeito da eutanasia e o quadro médico em que se encontrava o Bee.
Eu queria ter certeza que estava tendo a atitude certa, queria ter certeza que não existia nada melhor para ser feito naquele momento, afinal tirar uma vida seria minha responsabilidade.

O médico enumerou vários pontos em que eu respondi sobre meu ponto de vista, tais como :
Como estava a qualidade de vida dele, se ele tinha dignidade ou havia perdido, se ele fazia as necessidades sozinho ou dependia de fralda, se ele andava sozinho ou precisava de nós, e a mais decisiva : como estava o olhar dele ? Havia um foco ou se perdia no horizonte ?
Todas as minhas respostas foram negativas, porém a conclusiva sem dúvida foi referente aos seus olhinhos redondos e marrons, não existia mais entusiasmo nem vida, ali meu Bee já tinha partido.
Decidi leva-lo para eutanasia no dia seguinte pela manha, mas no caminho de volta para casa tudo estava tão cinza ... como eu ia olhar pra ele sabendo sua sentença de morte ? Como seria a dor do último curativo depois de meses, da última refeição depois de 11 anos ? De fato eu não iria suportar. Resolvi leva-lo á clinica naquela mesma tarde de 04 de dezembro de 2013.

O que você faria no momento do adeus ? A maioria das pessoas aproveitariam os longos minutos antecedentes para abraçar, agradecer, ou simplismente olhar o seu melhor e mais fiel amigo. E estão certas, não é clichê ! Mas eu não fiz ... não queria que ele percebesse que era o fim, que era nossa despedida.
Levei ele até o médico como um passeio habitual ( ele não conseguia mais ficar em pé na janela do carro ), sentamos na recepção e esperamos o momento.
O clima era péssimo, todos estavam tristes, ele era amado, querido ... e ele ia embora.

Chamaram nós para entrar-mos na sala de consulta, colocamos ele em cima da maca e eu tirei sua coleira que parecia pertencer á outro cão, estava pesada, folgada no seu pescoço, acredito que ao todo desde a descoberta da doença ele perdeu uns 10kg.
Abracei ele e comecei á conversar com o médico, dei risada e transpareci o mais natural possível diante dele e da morte.
O doutor aplicou um sedativo ( na mesma linha do Diazepan ) que o fez entrar em um gostoso e calmo soninho ... encostei a cabeça dele em meu braço e o corpo rente ao meu colo, em poucos segundos ele estava roncando. Ouvi-lo roncar me devolveu á lembrança dos tempos " normais ", pois há meses ele não tinha mais uma noite inteira de sono.
Logo após foi aplicada uma alta dose de anestesia para que não houvesse dor, e em seguida a injeção letal.
Seu pulmão ficou acelerado para compensar o coração que já havia parado, respirou muito forte umas três vezes e em seguida parou. O médico verificou as funções vitais e já não houve resposta, olhei no relógio de parede que estava bem á minha frente : 4:12 hora da morte.

Nos deixaram á sós, e foi então que me despedi dele. Ainda com seu corpinho franzino em meus braços chorei ... agradeci por tudo que ele fez por mim, pelo cão bom e obediente que sempre foi, e o melhor amigo que já tive.
Aos poucos e com cuidado soltei ele na maca, cherei muito a patinha dele pra nunca mais me esquecer de como era seu cheiro, nunca vou me esquecer.

Eu gostaria de expressar quais eram meus sentimentos e a tristeza que senti naquele momento, mas são tão íntimos á ponto de serem indescritíveis.
Além da dor da perda existe o alívio em poder tirar a grande e maldita dor dele, em poder descançar-me depois de tanta luta.
Luta qual perdemos pro câncer. Essa doença não vai sarar só pela força dele, nem pelo sorriso largo das pessoas, e eu precisava ajudar em alguma coisa nesta campanha, lembrei-me que o Bee a vida toda só foi bom com as pessoas á sua volta, paciente com os animais quais cruzava seu caminho, sendo assim nada mais representativo do que doar seu corpo para estudos em cães com câncer terminal.
As clinicas e hospitais especializados no tratamento normalmente recebem doações de cães abandonados, maltratados na rua, mas dificilmente cães de raça e grande porte, seria mais que justo ajuda-los nessa. Olhei bem pra ele e fui fechando a porta da sala ... meu amigo se foi.

Um mês depois e as noites em casa ainda são as mais difíceis, não houve um dia sequer que eu não lhe desejasse boa noite, e agora não mais.
Voltei á trabalhar e praticar esportes, voltar pra casa já não é mais minha maior vontade. Não ver ele no abrigo me esperando entrar com o carro, não ter com quem conversar nem levar pra passear dói ... ir ao petshop e não comprar o que el mais gostava, comer pizza e não ver a carinha dele de " pidão " e depois dar uns pedacinhos escondido ... ainda é cruel sentir toda essa falta, e sobra falta.

Tenho meu London ( meu boxer de 1 ano e 4 meses ), que comprei em um canil para companhia do Bee. Ele é um gostoso, lindo, raça pura ( pedigree ), e super inteligente. Qualidades que o Bee não tinha, mas que não superam nunca a simplicidade, o amor, a amizade e o carinho do meu amado Beethoven.
O London é bem na dele, independente ! Quer brincar todo o tempo e não se importa se estou chorando ou rindo, não existe nada além da euforia desse bebezão.
Não se importou que o amigo se foi, pelo contrário, ficou mais tranquilo, seguro de si e se achou o rei da matilha.
Amo meu pequeno, faria tudo que fiz pelo Bee pra ele, sem diferença alguma, mas confesso que a intensidade do amor é completamente outra. Dizem que precisamos de um tempo um do outro, que ele vai mudar e eu também ... desejo muito que isso aconteça pois sei o quanto machuca essa tal saudade.

No dia em que descobri a falha renal do Beethoven estava dirigindo em uma estrada e me deparei com essa canção, e á partir de então ela se tornou " nossa canção ". Tenho partes dela espalhada pela casa com uma dedicatória á ele. Tenho absoluta certeza que quando tocar essa música sua pequena alma se sentirá acolhida e amada por mim, para todo o sempre ....

You Are My Sunshine

The other night, dear, as I lay sleeping
I dreamed I held you in my arms
When I awoke, dear, I was mistaken
So I bowed my head and I cried


You are my sunshine, my only sunshine
You make me happy when skies are grey
You'll never know, dear, how much I love you
Please don't take my sunshine away


I'll always love you and make you happy
And nothing else could come between
But if you leave me to love another
You'll regret it all someday


You are my sunshine, my only sunshine
You make me happy when skies are grey
You'll never know, dear, how much I love you
Please don't take my sunshine away


You told me once, dear, you really loved me
And no one else could come between
But now you've left me and love another
You have shattered all my dreams


You are my sunshine, my only sunshine
You make me happy when skies are grey
You'll never know, dear, how much I love you
Please don't take my sunshine away